Nova política de cotas sociorraciais torna funil da entrada na universidade cada vez mais estreito

Projeto é questionado por alunos cujas famílias se esforçam para mantê-los no ensino médio particular mas não conseguem bancar custo de escolas no topo da lista do Enem.


Valquiria Lopes -
Correio Braziliense




"Fiquei espantado quando vi a notícia da reserva de metade das vagas. Concordo com a política do bônus, mas acho injusta a divisão", diz Vinícius Piassi Franco. Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A.Press
Além de dividir ao meio as vagas nas universidades federais brasileiras, a nova política de cotas sociorraciais, aprovada pelo Congresso Nacional e que aguarda sanção da presidente Dilma Rousseff, colocou em evidência dois grupos com posturas bem distintas. De um lado estão alunos do ensino público e de baixa renda, beneficiados pelas mudanças, enquanto do outro estão os matriculados na rede particular, que tendem a precisar de um desempenho 100% melhor para entrar no ensino superior gratuito. Entre eles, porém, há um grupo ainda pouco visível, mas que pode pagar a conta mais alta das novas regras: são alunos cujos pais se esforçam para pagar mensalidade na rede privada, mas não possuem renda suficiente para bancar o custo das escolas que estão no topo da lista de aprovação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ferramenta que abre portas para uma vaga no ensino superior mantido pela União.

Especialistas alertam que essa parcela sai duplamente prejudicada: de um lado, fica fora dos benefícios da nova lei – voltados para os que cursaram todo o ensino médio nas redes estaduais ou municipais, além dos que se autodeclaram de origem negra ou indígena –; de outro, veem diminuídas as chances de competir em pé de igualdade com os candidatos preparados em escolas ou cursinhos considerados de ponta. Isso porque, com as cotas, o número de vagas de livre concorrência nas federais foi reduzido à metade, o que faz dobrar o nível de disputa.

A discussão que põe em jogo o futuro dos jovens é, na avaliação do presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG), Emiro Barbini, uma conta cara paga por quem faz um esforço imenso para tentar garantir a educação como herança. “Tem muitas famílias que hoje deixam de ter um lazer ou de adquirir um bem para oferecer o melhor que podem em termos de escola. Infelizmente, nem todas as particulares estão no mesmo nível e, apesar de serem tradicionais e boas escolas, algumas sobressaem na hora do vestibular”, afirma, sem fazer distinção de entidades.

Situação que a família da estudante do 3º ano do Colégio Frei Orlando Débora Mariana da Silva Marioto, de 17 anos, conhece bem. A jovem afirma que para pagar a mensalidade de R$ 756 os pais dela precisam fazer um esforço muito grande. “É desgastante para todos, porque às vezes queremos viajar ou comprar alguma coisa e estamos apertados. Além da mensalidade tem gasto com material didático, transporte e com almoço, já que este ano estudo em horário integral”, conta a estudante que mora no Bairro Glória, Região Noroeste da capital.

Para Débora, a reserva de 50% não resolve o problema da educação no país. “Se o governo quer fazer algo, que seja feito no processo de formação do aluno, nos ensinos fundamental e médio para que o estudante de escola pública chegue preparado à universidade”, defende. A estudante, candidata a uma vaga na federal no curso de biomedicina, diz não achar justo se esforçar tanto e ser prejudicada por uma política que tenta quitar uma dívida histórica.

Susto O estudante do 3º ano do Colégio Arnaldo Vinícius Piassi Franco, de 17, também reconhece o empenho da família para manter os custos de uma escola particular. “Venho do interior, e além da mensalidade de R$ 800 da escola temos outras despesas como aluguel do apartamento e todos os gastos para me manter fora de casa. Tudo isso é bancado pelos meus pais”, afirma. Temendo o funil em que pode ser transformar o acesso à universidade, Vinícius critica o projeto. “Fiquei espantado quando vi a notícia da reserva de metade das vagas. Concordo com a política do bônus, mas acho injusta a divisão”, diz o estudante, que será candidato ao curso de direito.

Apesar de também poder estar na lista dos prejudicados pelo projeto, o aluno do Colégio Frei Orlando Magno Peluso, de 17, é mais complacente com a política de cotas. “Concordo com a reserva de vagas, desde que para alunos que estudaram em escolas públicas. Seria uma medida paliativa para o problema da educação. Acho ridículas as cotas raciais, porque são uma forma de gerar ainda mais preconceito”, afirma.

Fonte:http://www.diariodepernambuco.com.br

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